terça-feira, 1 de maio de 2018

Netanyahu diz ter provas de que o Irã tem um programa nuclear secreto

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, nesta segunda-feira em Tel Aviv.
© AP O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, nesta segunda-feira em Tel Aviv.

O chefe do Governo israelense disse que estava apresentando documentos “idênticos aos reais” conseguidos pelos serviços de inteligência israelenses depois de terem se infiltrado nos arquivos secretos iranianos com a finalidade de demonstrar que o Irã está enganando o restante do mundo. A informação foi compartilhada por Israel com a Casa Branca e com altos funcionários da segurança da França e do Reino Unido. “Agora os Estados Unidos têm a palavra para salvaguardar a paz no mundo”, concluiu Netanyahu.

Um ataque com mísseis contra duas bases sírias que contam com presença militar iraniana causou neste domingo pelo menos 26 mortos, incluindo combatentes do Irã e de suas forças aliadas, segundo o Observatório Sírio para os Direitos Humanos, ONG independente que documenta as atividades bélicas na guerra civil no país árabe. O Exército sírio atribuiu “a agressão” contra suas instalações nas províncias de Hama (centro) e Alepo (norte) ao “inimigo”, em uma clara alusão a Israel. A agência de notícias ISNA informou em Teerã que 18 dos mortos no ataque eram combatentes iranianos, embora posteriormente a agência semioficial Tasnim tenha negado a existência de vítimas do país.

O ataque com mísseis contra a Síria ocorreu depois da conversa telefônica que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, manteve no domingo com Netanyahu. A Casa Branca especificou que os dois líderes falaram sobre as ameaças que pairam no Oriente Médio, e em particular sobre a expansão militar iraniana na região. Netanyahu recebeu também no domingo em Tel Aviv o novo secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, que realiza sua primeira visita à Arábia Saudita, Israel e Jordânia. “Estamos com Israel nesta luta. Uma estreita cooperação com aliados sólidos é a chave para contra-atacar as malignas ambições do Irã”, declarou o ex-diretor da CIA.

A mídia estatal de Damasco não relatou as baixas registradas nos ataques contra a base da Brigada 47 em Salhab (Hama) nem contra o aeródromo militar de Nairab, perto do aeroporto de Alepo. A rede Sky News Arabia elevou para 40 a cifra de mortos em ambos os bombardeios com mísseis, que causaram também mais de 60 feridos, segundo fontes da oposição ao regime. Testemunhas citadas pelo Observatório Sírio para os Direitos Humanos informaram que houve grandes explosões e incêndios na instalação militar síria em Hama.



Nas duas bases que foram alvo dos mísseis existem depósitos de armamento que incluem foguetes terra-terra, sob controle da Guarda Revolucionária do Irã, envolvida no conflito sírio em apoio ao regime do presidente Bashar Al-Assad. Os ataques incluíram presumivelmente o uso de mísseis antibunker, de alta capacidade de penetração explosiva, para destruir um grande arsenal subterrâneo de mísseis em Hama, de acordo com informações da imprensa árabe recolhidas pelo diário israelense Haaretz. O Centro Sismológico Euro-Mediterrâneo registrou um tremor de magnitude 2.6 na escala Richter na zona atacada.

Assad denunciou em Damasco “a escalada de agressões contra a Síria”, sem aludir aos ataques registrados em Hama e Alepo, depois de sucessivas incursões de represália e o bombardeio ocidental de 14 de abril contra instalações ligadas ao programa sírio de armas químicas. “O mapa regional está sendo desenhado de novo”, afirmou o presidente, e as potências hostis passaram da fase da “agressão indireta”, por meio dos rebeldes, para a da “agressão direta”, disse.

Israel não costuma comentar as suas operações militares no exterior. O ministro de Assuntos Estratégicos, Israel Katz, declarou nesta segunda-feira à Rádio do Exército que não estava a par dos fatos. Um ataque com mísseis contra a base aérea T-4 –situada na província central de Homs, em 9 de abril –e atribuído por Moscou e Damasco a Israel–, deixou 14 mortos, metade deles membros da Guarda Revolucionária Iraniana.

O ministro da Defesa israelense, Avigdor Lieberman, havia avisado no domingo que Israel iria “responder com grande força” a qualquer ameaça a seu território. Lieberman também alertou que não iria tolerar a instalação de sistemas antiaéreos de mísseis S-300 de fabricação russa nas bases sírias. A aviação de combate israelense se encontra em estado de alerta ante um eventual ataque de represália do Irã depois das duas supostas incursões aéreas que causaram baixas na Guarda Revolucionária, seus aliados libaneses do Hezbollah e milícias xiitas iraquianas e afegãs que combatem nas fileiras do regime de Assad.

Os serviços de inteligência de Israel temem que o ataque punitivo possa ocorrer depois das eleições previstas no Líbano em 6 de maio, ou ao término do prazo de 12 de maio fixado pela Casa Branca para decidir sobre o futuro acordo nuclear com o Irã, assinado em 2015. Uma escalada da tensão entre Israel e Irã pode levar a Administração do presidente Trump a antecipar sua previsível decisão de retirar-se do pacto atômico.

A Força Aérea israelense realizou mais de uma centena de incursões em território sírio desde o início da guerra, em sua maioria contra depósitos e comboios de armas da guerrilha libanesa do Hezbollah. Israel reconheceu que atacou o aeródromo militar T-4 em fevereiro, em represália pela infiltração de um drone em seu espaço aéreo. No incidente mais grave em que o Estado hebreu se viu implicado em sete anos de conflito civil no vizinho país árabe, a aviação militar israelense bombardeou com oito F-16 uma base de drones iranianos. Um dos caças foi derrubado pela defesa antiaérea síria, mas seus dois tripulantes se puseram a salvo.

Israel continua tecnicamente em estado de guerra com a Síria desde que em 1949 selou um armistício com os países árabes que tentaram impedir à força a criação do Estado judaico. A situação de conflito sem hostilidades se manteve depois da Guerra dos Seis Dias (1967) e do Yom Kipur (1973), em que Damasco tentou sem êxito recuperar as Colinas do Golã, posteriormente anexadas por Israel, sem aprovação internacional.

EL PAÍS
Juan Carlos Sanz

Arquivo de postagens do site

Jesus Salva